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sábado, março 01, 2008

O brilho que se brilha


Ontem estive com uma pessoa carismática e me intrigou, na verdade me intriga, como certas pessoas possuem alguma característica que não conseguimos facilmente apontar qual é, mas podemos simplesmente sentir que está presente e constatar que existem pessoas que são assim, talvez brilhantes por natureza. Abençoadas, diriam outros. A nós nos resta o deleite da companhia. Não acho que esteja relacionado apenas a um possível sorriso verdadeiro, ou a um brilho no olhar, ou uma covinha que surge quando se move os lábios, ou ainda um levantar unilateral de sobrancelha somado a um olhar certeiro. Tampouco está associado ao QI, ou ao tipo discurso que a pessoa toma, ou ao tom de voz, ou ao sotaque especial para pronumciar uma determinada frase. Também não necessariamente podemos unir o tal carisma com o uso pessoal e particular de alguns ítens de vestimenta ou adorno - definitivo ou não. O fato é que o carisma é um enigma que o dicionário Houaiss da língua portuguesa define como uma fascinação irresistível exercida por alguém a um grupo de pessoas. Encontrar atores(atrizes) ou cantores(as)com tal adjetivo é fato mais corriqueiro, mas ontem eu reconheci esse brilho na garçonete que nos serviu num restaurante de bairro de São Paulo, muito digno de visita. E a morena brejeira que na verdade servia outro setor de mesas, mas que estava sempre disposta a ajudar quem quer que fosse, tinha essa luz. Esse quê a mais que a fará ser destaque onde quer que ela for. Tentei ler em suas atitudes o que a fazia especial. Certamente nela se enquadrava o simpático sorriso aberto e o comportamento de observar o seu próximo de forma que conseguia chegar para ajudar antes de que fosse solicitado. O problema daquele que está próximo dela era visto mais rápido que a própria pessoa o diagnosticasse e era resolvido ainda antes que o outro tivesse o desconforto de percebê-lo. Da forma que me transpareceu, pelas suas atitudes não só ligadas ao servir as mesas, essa sua característica não estava presente devido a sua profissão, embora seja natural num bom garçom encontrar essa presteza e cuidado com aquele que está ao seu redor.



Não me contive e disse a que ela era especial. Não se fui redundante, mas pessoas asssim, dentro de uma humildade gostosa, já sabem que possuem essa luz. E que de certa forma são merecedoras dela por saberem exatamente como irradiá-la.



Um beijo,

TiTa

quinta-feira, abril 12, 2007

Manicure


Cutucava os dedos da cliente como quem tem um prêmio a receber por cada pelinha retirada. Ágil, magricela na cintura, frágil no quesito peito, mas com uma bunda honesta, volumosa e de muita personalidade. O cabelo tinha uma cor diferente, dessas que só quem trabalha num salão de beleza é capaz de portar. Era natural sua tintura. Natural em sua beleza. Podia-se jurar que era loira com uma tendência ruiva, não fosse pelo fato dela mesma confidenciar, com ar despretencisoso, entre dentes e ao pé do ouvido da cliente que ela mesma tingia seu cabelo, no aconchego do lar. Por isso que gosto de ser curiosa, disse espontânea. Numa espontaniedade infantil própria dela e que fazia, inexplicavelmente, carrregar uma série de fãs. Homens e mulheres. Curiosa para ela era sinônimo de interessada. A mesmíssima coisa. Equívoco compreensível quando se estava ao lado dela. Tudo se explicava e se justificava, mesmo sem requisições. Eram a imagem e o jeito dela que tornavam tudo como deveria ser.

Observava com rigor as atividades que seu patrão desempenhava, e repetia com o afinco da melhor aluna da turma em sua humilde morada. Tal atividade doméstica causava certo desespero no chefe do lar. No fim ele iria gostar, jurava para ele num tom tão doce quanto seguro, que acabava desconcertando o pobre homem. Há tempos ela já tinha ganhado aquele segundo coração. Nem ele desconfiava do grau de tal doação, mas homens costumam demorar mais a perceber mesmo. Você sempre gosta do que faço, completava com ar desinteressado enquanto passava a gororoba na parte posterior da cabeça sentada na privada, jogando o cabelo todo para frente, vestida num robe claro que se entreabria, mostrando as coisas que ela não tinha preocupação em esconder.
Não era daqui, era de lá. Por isso tinha o sotaque cadenciado. Bonitinho, mas soava forte. Fortíssimo quando cometia um desses erros, medonhos e primários, de português. E então voltava a ter um ar infantil num corpo de mulher e seguia, na sua ignorância irrestrita, conquistando um séquito de fãs. Alguns tentavam em vão corrigir o absurdo pronunciado. Ela fingia que aprendia o certo e continuava falando como estava acostumada. Inteligente a ignorante.

Prosseguia explorando cutículas quando sua colega ociosa observou as manchas que vinham aparecendo em sua própria pele. Antes de qualquer melhor análise da mancha, sem mesmo olhar para elas, disse o definitivo diagnóstico dos hematomas, ao menos o diagnóstico que conhecia, carregado de uma sabedoria que só serve a quem tem capacidade de entender:

-Angústia.

-Você está tendo o mesmo problema de minha mãe.

A outra já sugestionada não quis se lembrar da distância de sua cama até o móvel com a TV. E da distância da mesma cama para o armário, que para abrir porta ou gaveta precisava subir um pouco a colcha, pois senão a abertura ficava insatisfatória. Tudo na posição exata. Em latitude e longitude. Caso contrário os movimentos estavam impedidos. E as topadas, mesmo com muito habilidade eram inúmeras.

Não importa qual fosse o misterioso motivo, mas Angústia caia como uma luva. É universal o sentimento e todo mundo tem ao menos uma guardada. Por vezes trancadas. Muito mais fácil se elas se abrissem em hematomas doídos apenas ao toque na pele.


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No segundo tempo dessa história cheguei em casa e vi a perna da troiana cheia de hematomas, desses que denunciam o grau de espoletice(?). Pobre dela se tivesse tudo isso de angústia, pensei na hora.

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Besitos e boa seixta!

Tita.

quinta-feira, novembro 30, 2006

Numa quinta-feira, qualquer chuva que chover é pouca



Ilustração de Ralfe Braga, coisas que só descobrimos porque existe internet.

V* acordou cedo e não foi nada fácil. Chovia pra cacete na cidade, mas ele já estava cansado do barulho da chuva para poder se apegar a ele. Não ter o que fazer era a rotina e se descobrir incapaz aos 58 anos levava-o ao fundo de poço. Vestiu sua calça surrada e suja. Arrumou o cabelo ondulado e grisalho com o pente fino que cuidadosamente recolocou no bolso de trás da sua calça. Junto com a carteira carregada com apostas da mega sena, quina, jogo do bicho e uma rifa de DVD que será sorteada no dia 20 de dezembro. Na sua carteira, ainda, seu Registro Geral e nenhuma cédula ou moeda, nenhuma. Na absoluta falta de dinheiro existiam alguns boletos para pagar e um cartão Rener. Um homem cheio de sonhos quase impossíveis. Em seu RG, a três por quatro é digna de mafioso, talvez o sobrenome que sugeriu participação em organizações escusas. Mas quem vê aparência não vê essência, e definitivamente não era o caso. Ainda estava escuro quando saltou do ônibus e caminhou até a porta da oficina mecânica do irmão e por não encontrá-lo tão cedo lá, puxou seu Derby de embalagem azul acomodada no bolso da camisa e o levou até boca. Diante das portas cerradas do estabelecimento esperou alguns minutos antes de acendê-lo. Não porque titubeasse na vontade de fumá-lo, e sim porque, naquela hora da manhã seus gestos eram naturalmente mais lentos. A tragada não caíra bem e antes da segunda ele jogou o danado na sarjeta, maldizendo-o. Talvez tarde demais. Foi tomado por uma mal estar. Suava frio na testa e o ar se recusava entrar em seus pulmões. Tentou pensar rápido com o oxigênio que restava em seu cérebro e andou a passos lentos até a padaria já aberta. Pediu um copo d'água, que foi prontamente recolhido da torneira e estendido até sua mão pálida de unhas sujas. Tomou meio gole e o mal estar aumentou. O sujeito ao seu lado viu que algo não ia bem. V* se escorou no balcão e escorregou caprichosamente até estender-se no solo. Ele já não via mais nada com seus esbugalhados olhos azuis. Um elemento pulou sobre seu tórax e começou a fazer movimentos que o mesmo chamou de ressucitação. A emergência modificou a manhã da padaria do centro e o assessor parlamentar do vereador músico de São Paulo que passa diarimente em frente ao local observou o movimento estranho antes de chegar ao seu gabinete de trabalho. Acenou com vigor para a primeira ambulância que passava. Mesmo estando com outra paciente o carro parou e atendeu o homem, que já chegou ao hospital sem respiração, sem pulso, sem batimento cardíaco. Mas com a carteira no bolso da calça. O assessor parlamentar não sabia informar quanto tempo tinha se passado, mas pela aparência de V* já havia alguns bons minutos. Só restou tentar identificar a pessoa e avisar a família. É para isso que vivemos. Para ter o nosso dia que será muito diferente, mas não teremos a quem contar.

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A quinta-feira seguiu com chuva forte.

quinta-feira, outubro 12, 2006

Tattoo you, tatu me.


Doei sangue dias atrás e não há como não achar engraçado responder as perguntas: Tem tatuagem ou piercing? Quantos parceiros sexuais teve no último ano?
Lembro-me bem quando na faculdade, início da década de 90, ter tatuagem estava intimamente relacionado a possibilidade de se ter AIDS. Estúdios não autorizados e irregulares eram muitos. Atualmente, bem mais que moda, a tatuagem é consagrada e todo bairro de SP tem um local decente para você pintar sua pele, fazer sua marca. Foi-se, há muito, o tempo que pessoas tatuadas eram aquelas egressas de presídios. Havia um amigo de turma que antes de medicina tinha cursado administração e talvez por isso, nem pensava em ser médico, tatuou um enorme dragão no braço e uma paisagem praiana no dorso. Época de surfista devidamente registrada. Vestindo terno não aparecia. Mas na roupa de centro cirúrgico, a fantasia de médico, mostrava o que ele provavelmente não queria mostrar. Ou queria. Afinal, não é para se deixar escondida que se faz uma tatuagem. Quando eu estava na oitava série, o bonitão da turma tinha o Woodstock (o passarinho do Snoopy) tatuado no ombro direito. Conquistava mais meninas com esse charme meigo.
Penso que tatuar o corpo é uma forma de gritar o seu amor, seja ele qual for. Mesmo que seja mostrar seu amor a você mesmo(a). Estive recentemente com uma amiga de longe que escreveu o nome dos filhos nas costas, com borboletinhas no final. Delicado e fiel ao seu amor. Igualmente escancarado está o amor da Vic, minha amigona, que ao completar 35 achou por bem tatuar o nome do marido. Não faltam pessoas para criticar. Eu, verdadeiramente, acho lindo. É uma declaração de amor e muito mais que isso. A felicidade e a completude que a pessoa sente ao fazer justifica qualquer crítica.
Há a Hibisca, uma amiga que é um capítulo a parte em matéria de tatuagem. Ela foi batizada com esse apelido graças ao hibisco que fez no punho esquerdo e que está na foto acima. Cheio de significado. Suas tatuagens foram, e ainda vão, me contando aos poucos sua história. Muito do que ela queria me falar eu reconheci em seus desenhos, como se ela tivesse colocado na pele para contar.
Tem também a Ju Tattoo, menina que conheci no fanático MTV, em 2005, doidinha pelo Nando Reis. É cheia de frases dele em locais improváveis, que mostra a quem quiser ver.

Há ainda a Amandita do mural, que relutou em fazer a clave de sol que, ao meu ver, não vinha se estampar em seu corpo, e sim desabrochava, vindo de dentro, para marcar sua pele. Esse é o real significado da tatuagem. Não é algo que se incorpora, mas algo que já existe e se expõe. Se impõe, se abre, se escreve. Uma espécie de legitimação exterior que mostra algo importante para quem a tem.
Geralmente é feita em momentos determinantes da vida, e é cercada por um sentimento bom. Não deixa de ser uma forma de se colocar, de se afirmar e de se mostrar diverso, como de fato, todos somos. Com ou sem tatoo. Ainda não fiz uma e provavelmente nunca faça. Até eu mudar de idéia. Por enquanto não há nenhum ponto do meu corpo que mereça ser colocado em evidência. Tatu, me.

Meu beijo e meu carinho!
Tita

quarta-feira, setembro 20, 2006

Vem cá, eu te conheço? (pessoas revisitadas)

Pinacoteca de São Paulo, um esconde-esconde de Rodin
Penso que cheguei a meia idade, seja lá que idade essa for...Se tenho trinta e tralálá, matematicamente posso calcular a meia idade, tal que X é a idade que atingirei. Como X é uma incógnita e assim continuará não sei o resultado da equação. Mas também não importa, se faz tarde e já vejo certo prazer em tomar sopa de noite.
Há um tempo estava numa livraria dessas multi-mídia, que tem de tudo e que posso acertadamente concluir que é um de meus programas favoritos visitá-las. Depois de ler sobre receitas rápidas e fáceis, ver preço de máquina fotográfica digital, ver uns livrinhos infantis e se encantar com o grau de beleza que eles têm, finalmente fui me divertir na seção de CDs. Por lá uma pessoa me notou, e na seqüência eu o notei. Como já disse estou na meia idade, mas com corpinho da pós idade. Assim, de longe passa paquera na minha cabeça. Não dá, não estou para isso também. Será possível que é pra mim que ele tanto olha? De rabo de olho concluo que é pra mim, afinal havia vazio ao meu redor. Era comigo e resolvi que se ele me olhava eu podia dar umas encaradas. Foi quando me veio a luz, sinapses foram rapidamente estabelecidas: A-há! Eu conheço esse cara! Gostaria de poder apresentá-lo agora para você, leitor, mas o que ocorre é que não faço a mais vaga idéia de quem ele seja. É um daqueles conhecidos-desconhecidos que me atormentam. Por que será que eu fui abençoada com esta capacidade incrível de guardar bem fisionomias? Guardo a fisionomia como poucos, mas o resto vai para o espaço. Conjugo a famosa dificuldade de correlacionar nome, lugar e pessoa. Departamentos do meu cérebro que não se conectam, deixam-me sozinha com um rosto familiar. Poderia ter ido até ele dando um simples oi e começando qualquer conversa sem noção chegaria a alguma conclusão sobre o paradeiro de meu conhecimento. E como sofro de pouca timidez lá pela metade do papo, soltaria o cruel “de onde mesmo que eu te conheço?” e minha agonia findaria. Na meia idade podemos conhecer a pessoa da escola, do colegial (que agora chamam de ensino médio), do cursinho em Santos, do cursinho em São Paulo, da faculdade, da universidade, de algum hospital que freqüentei, aulas extras...São muitos os lugares, e aqui há uma explicação, embora não seja uma justificativa, para esse meu problema.
No entanto pensei melhor. O cara não era tão comum. Baixo, de olhos claros, careca raspada, cavanhaque sem bigode, longo. Some a isso brincos , anéis e tatoos em profusão. Me ocorreu um medo de chegar lá e ele dizer: Sim nos conhecemos da televisão, de você me ver na televisão, sou baterista do ultraje ou do natiruts ou qualquer coisa descabida. Ou ainda eu sou VJ da Mtv...Sei lá, o mico seria muito grande e mesmo eu na mais descabida cara de pau não suportaria ouvir essa resposta!
Acabou que não o abordei. Saímos da livraria quase juntos, como um carma, um encosto atormentando minha mente. Então, ele saí na frente e posso ver a placa de seu carro. Pista que me levou a solução do mistério. É da cidade que trabalho, perto de SP. Conexões no andar de cima me dizem que ele, enfim, é um dentista de lá, encontro-o raramente em reuniões. Aliviada, vou para casa e posso dormir em paz.

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Nesse último final de semana de festas ocorreu algo bem parecido. A dona da festa conversava com um homem que era muito familiar. Dessa vez achei que o conhecia do hospital, do HC. Estava quente em minha pista. Cumprimentei-o com um sorriso e curti a festa. Minha amiga estava num papo muito bom com ele e assim demorava pra eu poder ir lá fazer a cruel pergunta :"de onde te conheço?"... Perigosa, eu? Só um pouco, doidinha pra dar um fora. Pensei melhor e sendo a moça muito próxima minha achei adequado perguntar a ela quem era o homem. Ainda bem que não fui falar com ele... É o doutor da alegria, Tita! Ao menos eu o conhecia do hospital mesmo, e claro da televisão também.

Me beijo e meu carinho!
Tita

terça-feira, setembro 05, 2006

Decifrando (curiosa que sou)

Há exercício bastante em olhar para uma pessoa e pensar sua vida, seu modo de entender o mundo e de viver. Esse é um exercício que, queira eu ou não faço a todo momento. Algo como um reflexo medular, sem pensar já estou devaneando sobre aquele que está na minha frente. Um misto de captar sinais, ouvir a conversa, afiar a intuição e chegar a uma conclusão. Me perdoe o teor da veracidade do que venho a concluir, mas tudo segue tão natural e espontaneamente que não há como excluir verdade que obtenho da límpida resposta que aparece.
Assim, quando vou ao supermercado e vejo a funcionária que fatia frios em plena atividade de sua função sistemática, posso imaginar através de sinais que a mesma emite, o que ela quer me revelar. Seu olhar, suas mãos, sua roupa, seu formato de rosto...tudo são sinais que me levam as sua sua história. E como uma penetra na festa alheia, viajo na vida dela.
Da mesma forma, o professor sisudo na frente da sala de aula, está me passsando seus códigos, passando pelo crivo de meus pensamentos. Imagino quando ele chega em casa e corre para afagar seu cão. Fim de sua sisudez. E, mórbido ou não, esses pensamentos dominam minha cabeça nos momentos mais impróprios. Refém do que voa solto no andar de cima, me pego dando um sorriso inoportuno resultado da idéia que criei. Sei que corro o risco de viver para os outros uma vida melhor do que ela pode ser. Ou pior. Porém imaginar é quase viver.
Vou mais além se me deparo com pessoas já avançadas em idade. Essas me dão substrato para ter uma vida quase inteira nas mãos. Dessa forma, quando aceno para o senhor que vive na casa de repouso de frente da escola do meu filho diariamente, é porque já o conheço. Por muitos dias o vi lá, talvez ele tenha me visto antes. Acompanhava eu tocar a campainha, esperar o porteiro abrir, para enfim dar o beijo na bochecha e desejar-lhe boa aula. Até que resolvi acenar para ele. E hoje quase diariamente o gesto se repete. Em dias de chuva ele não está lá. Sei que foi um advogado criminalista e metódico em seu trabalho, e que o boné que usa é só para afastar-se do sol com a mesma força que tenta afastar o passado rígido que viveu. Com sua primeira mulher foi extremamente feliz, mas enviuvou após muito sofrimento. Tiveram quatro filhos. Austríaca que nunca conseguiu falar muito claramente o português. Os meninos foram morar na Europa. Tem lindos netos que sentem falta do avô, que existe mais como uma foto no porta retrato do que como uma pessoa do outro lado do Atlântico. Com a segunda mulher encontrou boa companhia. Poucos anos tinham de relacionamento quando um mal súbito tirou sua vida ao ler a orelha de um livro no saguão central de uma certa livraria. Já estava aposentado e receber essa notícia entrou para o rol da piores coisas que já ouviu na vida. Hoje mora lá, de frente à escola de meu pequeno para que possa me acenar, quase que diariamente.
E brincar de decifrar aquela pessoa que surge no espelho. Esse é o desafio que não deixo nunca, nunca se completa. Essa diversão existe desde os primórdios quando qualquer choro forçado era motivo de correr para o espelho e descobrir como ficava ao chorar. E até hoje essa é a pessoa que mais me mostra a necessidade do exercício. E que me faz perpetuá-lo.

quarta-feira, agosto 09, 2006

PNEUMOTÓRAX

febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tose, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três...trinta e três...trinta e três...
- Respire.
.................................................................................................................
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

(Manuel Bandeira)


A nossa vida é inteiramente ela de escolha. Maiores ou menores. Desde o primeiro minuto que acordamos até no momento do término de mais um dia, tudo são escolhas. Decidimos o horário que o despertador irá nos chamar, indócil. Depois optamos por mais uns minutinhos antes dele gritar de novo...ou não. Escolhemos se teremos pão, café com leite e frutas, ou simplesmente um copo de iogurte antes de sair de casa. A roupa que vestiremos também é resultado de uma seleção, dentre as opções do nosso guarda-roupa. A marca da nossa escova de dente e creme dental, bem como do sabonete também passou pelo crivo de nossa escolha.

No entanto diante de tantas escolhas tidas como bestas e automáticas tem aquelas que nos paralisam, nos fazem acreditar que tudo pode ser radicalmente diferente se fizermos a opção errada. Tudo pode ser arruinado se o caminho escolhido for o errado.

Como a minha paciente que decidiu o caminho que não é o do coração quando se afastou do seu verdadeiro amor. Ela na meia idade e solteira já com filhos grandes. O namorado um senhor muito bom, segundo ela, que viaja às vezes para trabalhar. O problema é sua profissão: matador. Recente havia viajado até a fronteira com Paraguai para um serviço. Ela, na cumplicidade que um bom relacionamento propõe, acabou sabendo coisas demais, que a tornaram perigosa por seu conhecimento da vida alheia. Quase acabou morta na cama de um motel pelo próprio amado, que não queria vê-la sofrer depois por tudo que já sabia. Ele julgara que ela já sabia demais para continuar viva, no entanto não consumou o ato. Já estava apaixonado demais por ela. Veja, "dotora", é um homem é muito bom, me deixou viver e me recomendou dizer sempre: eu não sei de nada. Ele me deu muitos presentes bons, muito amor, mas Deus me mostrou que não posso mais ficar ao lado dele, apesar de amá-lo muito. Já havia decidido quando passou em consulta comigo.

E uma amiga minha que está prestes a mudar de emprego. Anos de dedicação numa empresa, para perceber que o ciclo lá estava esgotado e precisava desgarrar as raízes para poder usar suas asas e voar, como diz um de meus autores favoritos, Mia Couto. E se ela estiver trocando o certo pelo incerto? Ou trocando seis por meia dúzia, mas com um terrível gasto de energia que pode ser doloroso? O fato é que se pensarmos muito, não fazemos escolhas e a vida fica estagnada. Uma confortável sensação de segurança que não é justificada pela quantidade de perdas que acaba nos trazendo a nossa aparente falta de opção.

Poderia listar aqui um tanto de escolhas tidas como maiores. Como se é melhor continuar um relacionamento morno e seguro ou buscar calor e emoção no novo? Comprar um apartamento em São Paulo ou usar o dinheiro para investir em sua carreira ou ainda num sítio com lazer completo? Morar fora para crescer profissionalmente ou continuar em seu país com menor risco e maior segurança e pouca saudade? Processar o filho da puta- com o perdão do baixo calão, mas considero palavrões tão apropriados para certas pessoas- que invadiu seus direitos e revolveu toda sua paz, ou não remexer mais em feridas doídas? É importante saber que os caminhos são imbricados e mesmo quando parece ser um o oposto do outro há como haver interligações e possibilidades de novas mudança. Nada pode ser tão rígido que não te faça mudar outra vez, se assim o quiser. E sempre há algo diferente a fazer, nem que seja "tocar um tango argentino".

Desse jeito mesmo é nossa vida, abarrotada de escolhas. Trago comigo a "filosofia" que aprendi aos dezoito anos quando tomava aulas de direção e o professor me disse: Menina, depois que você olhou para a rua para checar se poderia entrar, e resolveu entrar, não precisa mais olhar pra trás para ficar confirmando que não vem mesmo carro. O espaço já é seu. Você tem de olhar para frente e continuar dirigindo. Tão simples. Tão óbvio.


A todos que me visitaram, meu carinho e meu beijo!
Tita

segunda-feira, julho 31, 2006

A Espera

“Um mandarim estava apaixonado por uma cortesã.“Serei sua, disse ela, quando tiver passado cem noites a me esperar sentado num banquinho, no meu jardim, embaixo de minha janela.”Mas, na nonagésima nona noite, o mandarim se levantou, pôs o banquinho embaixo do braço e se foi.” ( de Fragmentos de um Discurso Amoroso – Roland Barthes)



Livro que li na década de noventa, nem vinte anos na cabeça. Relê-lo todo sublinhado, rabiscado me dá uma sensação de segurança. Reconheço que continuo a mesma que tentava entender melhor aquela que levava o fenótipo. Reconhecer-me e ainda seguir incógnita. O tal “x” da equação que nunca vou achar e igualmente nunca vou deixar de procurar. Tanta coisa me explicou esse livro...
Esperamos sempre algo acontecer na vida. Dividimos nossos anos em meses, os meses em semanas, as semanas em dias, os dias em horas, depois as horas em minutos, os minutos em segundos e ainda mais frações de tempo. Infinitas. Tudo isso para, no fundo, termos uma forma de contabilizar a nossa espera. Vivemos em blocos de tempo para facilitar o legítimo cálculo do que nos resta. Viver é essa contagem regressiva para que algo especial aconteça. Assim vivo, mas não deixo de saber que a espera é a festa. A grande festa. O que se tem de verdadeiro. Como o mandarim, tenho prazer em esperar. Um prazer puro que não precisa, necessariamente, da realização do desejo para ser palpável. E por isso despretensioso e cheio de energia.
Com a idade que estou, com o perdão da morbidez, já descobri o óbvio. Viver é esperar a morte. Essa é certa. Tão certa como esperar por todo o resto. Enquanto espero, estou viva e pulsa o desejo de encontrar pessoas queridas, amadas e esperadas.


(está chegando, minha gente!)

sábado, julho 29, 2006

SOCORRO

“Socorro, não estou sentindo nada”, Arnaldo Antunes .


Por várias vezes na vida , tenho a sorte, em meu dia, sinto um prazer que não há palavra para descrever.
Considero muito justo existir o nome orgasmo para a série de movimentos involuntários, visíveis ou não, que temos na descarga final de prazer do intercurso sexual. Esse mesmo que muitas mulheres procuram sem saber que já sentiram e não fizeram a devida correlação, que outras buscam como ouro na água corrente de um rio, e há ainda as que se vangloriam de ter por mais de uma vez, orgasmo múltiplo, até denominação para o fato existe. Para o homem é mais simples localizá-lo porque ele quase invariavelmente é visível e auto explicável. Talvez por ser arcaico, instintivo e tão relacionado ao desenvolvimento de nossa espécie, o prazer sexual é descrito nas minúcias.
Quero saber como faço para denominar o prazer que sinto ao ler um parágrafo, que me explica coisas da vida, que me acende a chama da inspiração ou da inquietude. Aquele parágrafo que leio e releio, e tento de novo em voz alta, como um vício que todo prazer de certa forma nos traz. Que nos envolve num sentimento de unidade com aquele que escreveu, que nos exclui da solidão e nos conforta. E então faz admirá-lo(a) e de certa forma reverenciá-lo(a) por ter proporcionado aquele sentimento que não tenho nome para descrever, que não existe nome para descrever, e que me faz falta.
Como chamar o prazer que inicia com o cheiro da panela cozinhando no fogão, cheiro esse que remete a lugares passados que não existem mais e que será culminado numa explosão de sabor da primeira garfada, que, juro, sinto vontade de ajoelhar ao comer e isso não é exagero meu porque é sentimento. Legítimo. Mas sem nome. A falta de nome tira um pouco a veracidade da sensação mas não me deixa sem senti-la e principalmente não deixo de reconhecê-la.
Procuro no dicionário sem sucesso uma palavra que resuma a sensação de liberdade que tenho ao dirigir meu carro em alta velocidade, fato que pateticamente reconheço me causar prazer, associado ou não ao risco de morte que eventualmente posso estar correndo. E com que palavra descrever aquele sentimento que se tem o jogador de futebol segundos depois de ver seu chute marcar o gol. Aquele momento em que o indivíduo corre sem saber pra onde, levanta os braços, abraça, pula, pode ocasionalmente levantar sua camisa num strip tease que remete ao primordial prazer sexual, mas que hoje em dia ocorre em menor vezes pois sabe-se que pode haver punição nesse tipo de explosão, quem sabe com justificativas sexuais, para um prazer de conquista ainda sem nome.
Sinto-me órfã ao ouvir uma canção que toca sei lá onde meu corpo e me dá uma vontade súbita de rir ou chorar. Instintiva e dócil obedeço, sem ter como denominar o que faço, mas sempre respeitando o prazer a isso relacionado.
Voltando a música que abre esse texto, ela segue dizendo; “tem tanto sentimento, deve ter algum que sirva”. Na verdade é isso, os prazeres maiores ou menores existem e, ainda bem, posso reconhecê-los, só não posso denominá-los. Isso não deve me causar menos prazer. Ou então começarei a inventar nomes.