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sexta-feira, julho 25, 2008

Te contei.


Ela obedeceu o despertador num dia de férias. Fez café e tomou café. Não teve tempo para usar o banheiro. Lamentou. Saiu apressada com o pedido da médica na mão. No carro, enquanto checava seus olhos no retrovisor, pensava que chegar com 3 minutos de atraso não significaria problema. Estavam sem remelas. Seria atendida. Hum, a música de fundo da Rita Lee a fazia relaxar. E sorriu para o retorvisor. Balançou o corpo numa dancinha sem explicação. É hoje que conheceria o monstro achatador de mamas. Desculpe o auê, eu não queria atrasar você, diz jocosa. Foi atendida. Começou a seguir ordens. Tirou a camisa e o sutiã. Duas mulheres, uma a tocava e outra a analisava de longe. Essa última com mais reprovação. Talvez seja um complô, ainda pensou. Não se mexa, olhe para cima com o ombro esquerdo apontado para baixo, afaste a perna direita em 5 centímetros, joelho voltado para fora. Assim, relaxa!, falou rindo a moça sabendo da impossibilidade da situação. Seu cabelo, peraí, deixa eu ajeitar esse cabelão...Então pegou a mama usando os 4 dedos para cima e o polegar oponente embaixo. A carne saltava, mas era delicada a moça. Esqueceu que estaria no pré mentruo. Azar dela. Então veio uma chapa na velocidade de um elevador em queda livre que despencou sobre a mama fazendo pressão. Nem dói nada, pensou. Sabia!, As pacientes se queixam à toa, na mente dela. A mulher de longe moveu a cabeça pra esquerda e direta. Entendeu. Lá vinha a guilhotina de novo naquela teta. A pressão incial fez com que abrisse dois ragos de mais ou menos 3 centímetros de cada lado. Saía um tanto de sangue. A mama é bastante vascularizada, lembrou. Então a máquina desceu sem titubear, mais certeira e definitiva. A mama pendeu de lado. Despreendeu-se do tórax deixando uma úlcera sangrante exposta. E o cabelão por cima. Cuidado senhora!, o cabelão pode infeccionar a ferida. Ah sim, tomou então cuidado. Virou a cabeça e pôde ver seu mamilo direito a encarando, sem reprovação. Por favor olhe para cima, soou de instantâneo a voz. Obedeceu, mas não saiu da cabeça a imagem da sua mama com carnes amarelas ao redor da pele caída no canto da sala. Quanta gordura tenho nas mamas, calculou. Se eu subisse na balança agora já daria diferença pra menos, continuou calculando com certa felicidade. Agora a contralateral, senhora. Gostaria me posicionar dessa vez, querida, tentou. As mulheres autoritárias não permitem essas inversões de papéis. E poderia se tratar de um complô, lembrou. Ela precisa usar seus pequenos poderes, continuou pensando. Ainda que soubesse a insólita posição, foi incapaz de repetí-la.
Ela arrumou como pode, o sangue agora já pingava e formava uma pocinha que dificultou a abertura da perna em 5 centímetro. E veio a máquina. A outra deve ter arrumado algo na força preensora da dita que desta vez foi numa vez só. E a outra mama pulou ao solo, para o outro lado. Meio que escorregando, a teta esquerda seguiu em direção a direita, estavam acostumadas a ficar juntas. Pronto senhora , pode vir buscar na sexta-feira. Nem vai me dar uma gaze, pensou, achando ruim com a mocinha. Pôs a blusa e deixou o sutiã lá, se tornou desnecessário. Não provoque, é cor-de rosa choque!, ah Rita Lee...Logo a blusa ficou manchada, já que não teve colaboração das funcionárias.

Sexta-feira pegou o resultado e levou para médica. A mesma não a desanimou, atestou normalidade. Mas se despediu aconselhando que buscasse de volta as mamas na clínica para que pudesse repetir o exame anualmente.


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Não sei que reação causa um texto desses a vocês, mas escrevi fazendo uma brincadeira com o genial livro que li também na semana passada, de contos, que me foi especialmente presenteado pela Lu Longuete, a da Felicidade com Tristeza no Mesmo Time.
O livro é:
Gran cabaret Demenzial, de Veronica Stigger, uma contista gaúcha.
Fui pega de surpresa, a beira da piscina, as histórias começam normais e ficam muito muito loucas, ela tem idéias bastante psicodélicas, super inteligentes. É um tanto escatológico. Imaginativo é quase um eufemismo. O que escrevi é apenas uma brincadeira, que passa longe do talento da moça.
Gostaria de saber o que você acharia de um livro assim.
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Do mais, fiz primeira mamografia e tudo vai bem!

um beijo, boa sexta,
TiTa

domingo, julho 20, 2008

Livro: Precisamos falar sobre o Kevin


Aproveitando minhas férias na praia, levei uns 4 livros e tive um bom saldo de leitura que pretendo comentar post a post conforme percorro o final de minhas pseudo férias.


Esse foi recomendado pela Bethinha do blog
Noites em Claro.


A história é de uma americana com ascendência armênia que ama de paixão qualquer canto do mundo, e principalmente qualquer canto do mundo, excluindo seu país. É absurdamente bem escrita e a escritora é capaz de colocar no papel sentimentos escusos, desses que temos negamos de pés juntos a nós mesmos.

Conta uma história de um adolescente bem abastado, do tipo que está na moda nos Estados Unidos, que mata coleguinhas e alguns funcionários de sua escola de primeira linha.


O adolescente no caso é seu filho mais velho da narradora e ela repensa toda sua história de maneira muito clara na forma de cartas para Franklin, o pai do garoto. Ao escrever conseguimos assentar nossas idéias, ter uma companhia que ouve em silêncio e com atenção, dar cabo a horas insones, matar saudades, aplacar angústias. Enfim, ao escrever ela tenta digerir tudo o que aconteceu em sua (indigesta, diga-se de passagem) vida, que culminou com o assassinato em massa. Procura ser honesta consigo mesma tentando exorcizar a maldita culpa que já é incutida em nossa cabeça, independente da nossa vontade, assim que a menstruação atrasa. Tenho como certo que mesmo ela sabendo que não é culpada, imagino que coloca a cabeça no travesseiro e tem a nítda sensação de que é sim a responsável por tudo. Ela foi mãe perto dos 40 anos, fato que pode não significar nada, mas que nos leva geralmente a pensar numa gravidez muito bem planejada, pois se alguém nunca ficou grávida (ou nunca abortou uma gestação) até os trinta e tantos anos, não vai ser com essa idade que vai ser "pega de surpresa". No entanto ela não estava de mãos dadas com a maternidade, para ser um tanto romântica, quando decidiu ter o Kevin. Ela pesou muito o momento certo e ainda assim, parece não ter tido essa gravidez na época adequada. Ironicamente ela comenta que fazia lista de prós e contras, mas confessa que nunca estava na lista um contra do tipo: não vou ter filho pois ele pode ser um assassino. Pena que sua visão racional não ia tão longe. Comentei em outro post nesse blog sobre a "graça"(no sentido de ser agraciada mesmo) que passei a ver meu ofício (antes eu só via a grandeza do momento e não do futuro de uma pessoa) de obstar, praticar obstetrícia, estar ao lado e ajudar a trazer ao mundo um ser humano, que pode ser um futuro Einstein ou um futuro Paulo Maluf, havia citado eu. É isso, mesmo sendo nosso filho, a gente não tem, e não deve ter mesmo, a mínima idéia do tamanho da supresa - para usar uma palavra leve - que teremos. Mas imaginar que ele será um sociopata, ou seja, alguém que não sente remorso ou culpa pela atrocidades que é capaz de cometer, é demais. Como ela conta no livro, Franklin , seu então marido, não tolerava esses tipos de pensamentos "contar com o desastre é cortejá-lo", ele dizia.

Ela fica grávida pelo desafio de ficar grávida, para "virar uma página" - assim como se almoça para terminar a manhã e começar o período vespertino. Acaba que não consegue vencer o sentimento de ambivalência que a gravidez a propõe, nem mesmo quando o menino já chora no quarto ao lado. Não sente nada de especial quando enfim, depois de um longo trabalho de parto, dá a luz a um menino que não lhe diz nada com o olhar. Não se sente tocada pela varinha da fada da maternidade e realmente os sentimentos para ela são praticamente contos de fada ou histórias de extra-terrestres. Previsivelmente ela termina não sendo capaz de amamentar e com depressão puerperal. Tudo muito aparentemente incomum, pricipalmente quando se lê da forma crua e impiedosa que é bem escrita a gestação e primeiros meses do bebê, mas muito real.


Desde o primeiro momento, mas principalmente com o desenrolar da história, fiz um paralelo com um filme que vi ainda no meu internato, numa aula da disciplina de psiquiatria
O Anjo Malvado. Muito bom o filme, dois meninos primos de idade semelhantes acabam morando na mesma casa quando um deles, o anjo bom, se torna órfão. Esse "anjo bom" descobre as maldades que o outro é capaz de fazer e fica perplexo sem conseguir mostrar aos adultos o show de horrores que passa a viver. A autora também vivencia isso: vê o filho armar seu show e não consegue convencer o marido que as coisas não vão pelo caminho certo. Que o ser humano tem uma maldade imensa e que precisa ser muito bem capada para a sobrevivência da espécie todos sabemos. A criança tem esse lado mau bem desenvolvido, e está sendo provado pelo muito encontrado atualmente bullying, comum nas escolas hoje em dia e incomum de achar escola que saiba lidar com o problema. Mais interessante é a interpretação que o psiquiatra nosso professor nos propôs de que o filme é uma alegoria, sendo que anjo bom e anjo mau são os mesmos, parte de um mesmo ser. O futuro desse "anjinho" depende, dentre outras coisas, do lado que será estimulado e do lado que será freado. De fato o menino Kevin foi reforçado em sua maldade pelo pai cegado pela varinha da fada da paternidade (ele foi tocado pela varinha!). E foram vários os sinalizadores, ao menos da forma como coloca a própria mãe e de acordo com o que escreve ela percebia no ato e não apenas agora depois que já se sabe o fim (ou será o meio?) da história. Por outro lado, esse pai tinha de suavizar a maternidade muito mal resolvida e amparava demais onde sentia a todo momento o desamparo velado da mãe. No filme o final é feliz. Na vida real do livro, a mãe consegue ver o lado mau dela mas não consegue estirpar. A ela só resta de certa forma se unir a ele. Ela sabe ser parte dele. Se não foi capaz de aproveitar o que poderia ter de bom no que seria o sentimento mais puro do mundo, ela deve pagar penitências por isso e visitar o garoto regularmente, como uma mãe normal faria e ela mecanicamente faz.

O livro é pesado e não digo apenas de conteúdo. É um livro de 464 páginas de letras miúdas, desses que não costumo gostar principalmente por tornar não portátil o que é para ser portátil. A capa, como pode ser vista acima, tem uma imagem hedionda de uma criança com uma máscara de bicho selvagem. É muito boa, pois já desperta na pessoa que vê ( e até em meus filhos: minha troiana logo disse que não gostava desse homem!) o mesmo desconforto da história nele contida. Parecia que eu não iria conseguir terminar nunca, apesar de ler com muito interesse horas seguidas. Mesmo sabendo a história ia surpreendendo com a personalidade extremamente inteligente e na mesma medida crítica da autora. Ela tem horror ao norte americano padrão obeso com caminhonete que se julga dono do mundo ou de boa parte dele. Também venho de um núcleo familiar extremamente crítico e posso atestar que isso não pode ser isoladamente, aliás como nada, responsabilizado como desencadeador da tragédia. De forma que a inteligência dela e o mal jeito de lidar com sentimentos nos cativa e nos faz seguir ansiosos adiante no livro, que ainda é capaz de supreender como um thriller.


um beijo e boa noite,

TiTa

sábado, junho 02, 2007

Amanhecendo

Amanhã Sendo,como ELE gosta de brincar
Fundo do mar - Mia Couto



Quero ver



o fundo do mar


esse lugar


de onde se desprendem as ondas


e se arrancam


os olhos aos corais


e onde a morte beija


o lívido rosto dos afogados



Quero ver


esse lugar


onde se não vê


para que


sem disfarce


a minha luz se revele


e nesse mundo


descubra a que mundo pertenço




oooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo



Mia Couto é um escritor moçambicano por quem me apaixonei quando li "Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra".

Ele estudou medicina (parece que não concluiu), depois fez biologia e jornalismo e trabalha como biólogo em seu país, além de escrever como aqueles poucos que têm mesmo um dom. Que a gente lê e sente que não há esforço inspiratório, tudo flui naturalmente, e que nos faz capazes de entender logo nos primeiros parágrafos que estamos diante de um desvio do normal, do comum. Um sujeito capaz de expressar com prosa toda a poesia da vida. A vida que existe e a que não existe.


Tive o grande prazer de assistí-lo na palestra de lançamento de seu livro "O Outro Pé da Sereia", em São Paulo no ano passado. Certamente um dos pontos altos de minha vida, desses que a gente se orgulha e tem mesmo de contar e recontar, como uma forma de relembrar. E relembrar é viver, já denunciava o sambinha. E depois de enfrentar uma fila de tietes descolados no Sesc Vila Mariana, consegui (junto com ela...) trocar uma palavra com o gênio, fazer uma brincadeirinha quase impertinente, ganhar seu simpático sorriso de volta e ter dois livros autografados. Ele é muito agradável, tem aquela natureza sábia e simples do contador de história, gosta muito de Guimarães Rosa (de quem sou também devota) e como esse último adora inventar e brincar com as palavras que podem explicar o inexprimível e inexplicável. Conta várias histórias e parece que participamos de momentos divertidos de sua vida, como quando foi para Cuba para receber um prêmio e o Fidel Castro mui educadamente mandou separar uns ornamentos exóticos do tipo bijouterias finas locais para presenteá-lo. Por Mia Couto da África se tomava ser uma mulher negra e exuberante. E era um homem de estatura mediana com olhos claros. Mas com muito a dizer e representar. Olha, acho que a história foi assim, posso ter errado o país, mas foi alguma coisa assim.
No dia 23 de maio passado, Mia Couto foi homenageado pelo governo de seu país pela obtenção do Prémio União Latina de Literaturas Românicas 2007, atribuído pela primeira vez a um escritor do país e da África.
Acho que já havia falado de Mia Couto por aqui, mas, quem bem me conhece sabe que sou por vezes repetitiva e certas coisas não me cansam nunca falar.
Beijo e bom sábado!
Tita
E digo mais:
A foto, um amanhecer na praia.
O amanhecer encerra uma beleza que tem sua faceta mais adorável na esperança do dia que promete chegar. Sim, eu nasci num amanhecer e me reencontro para um novo nascimento cada vez que tenho oportunidade de vislumbrá-lo.
E as quintas-feiras pela manhã tem me proporcionado esse reencontro.
Sem perceber, ou percebendo, uma injeção de esperança me acerta.
Encontre AQUI mais poesias lindas do Mia Couto!
Eu não resisto, vou colar mais um:

Poema de Mia Couto

Ser, parecer
Entre o desejo de ser
e o receio de parecer
o tormento da hora cindida

Na desordem do sangue
a aventura de sermos nós
restitui-nos ao ser
que fazemos de conta que somos
Mais um beijo,
TiTa

quinta-feira, abril 05, 2007

Fissura

do flickr...





"Ele entra.


Ele faz uma careta.


Essa será a nova senha.


Para entrar tem que fazer cara feia.


É o preço.


Este é o preço para sentir o cheiro do inferno.


Nossa Senhora! Que cheiro ruim!


Fede, não fede?


Ô! E como.


Você come?


O quê?


Você falou, "fede e como".


Ah! O senhor é um brincalhão!?


Eu brinco."




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"Depois eu me pego cantando. Canto música em inglês. "I just Call, Porque te aaaamo". A música é meio a meio. E até danço também. Tento rapidamenteme recompor ao me ver refletido no espelho. Esse tipo de coisa acontece, procuro me desculpar. Embora isso seja verdade. Esse tipo de coisa realmente acontece. Com quem ama. Ou com quem toma esses remédios iguais aos meus.


Ou estou enamorado ou o remédio é bom.


Hoje é domingo.


Pede cachimbo."


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"


Acho que é o melhor lugar. É seguro.


Eu sempre sonhei com isso. Aí eu peço algo pra gente comer.


Não vai ser preciso. Quem ama não precisa comer.


Talvez seja essa a solução para a fome do mundo.


Quem sabe?


.


.


.


"A solução para acabar a fome do mundo"


Quem diria que um dia eu falaria algo assim.


É o amor.


Ou, os remédios. "



(trechos soltos de O Cheiro do Ralo)
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Finalmente estou lendo e quase acabando "O Cheiro do Ralo", de Lourenço Mutarelli. É rápido o livro, desses de ler facilmente numa sentada, pois ele te pega, fissura. Minha falta de tempo é um caso à parte, ler na folguinha entre pacientes me deixa mais reflexiva em relação ao livro que eu já considero reflexivo. E um pouco apreensiva. O protagonista (Lourenço) é doidão e ele dá asas as próprias neuroses. Todos nós damos, e procuramos os nossos remédios, nossas justificativas. Tudo muito peculiar.
.
.
.
É o que posso fazer enquanto não consigo assitir ao filme, mesmo já estando com ingressos de cortesia na mão!
Um beijo,
TiTa

quarta-feira, março 21, 2007

Sobre a Minha Ansiedade

Aí está a foto de um livro. Esse objeto de desejo.


Que eu sou ansiosa muitos sabem. Eu já sei. Aliás está difícil encontrar alguém que não vista esse predicado, inclusive se valendo dele para justificar fatos de relevância ou mesmo banais em situações corriqueiras da vida. Seguindo esse raciocínio: Come muito? É ansiedade. Chora à toa? Ansiedade. É grosseira gratuitamente? Ansiedade. Tem espinhas? Ansiedade. Fura o sinal vermelho? Ansiedade. E acaba que é um tal de Prozac, ou fluoxetina como devo prescrever, que todo mundo se vê tomando, até sem saber direito porquê.

É de um grande conforto ter uma palavra mágica para rotular coisas. E se for para rotular sentimento, então, melhor ainda! Sentimentos têm a capacidade desorientar seres humanos. E assim vamos aplacando a tal, ela mesma, a ansiedade que nos pega, ataca, corrói e paralisa. Tendo nome, ou melhor, um diagnóstico, tudo se assenta melhor.

E eu ouvi dizer que já se dosa quantidade de fluoxetina nos esgotos de São Paulo e de outras cidades do Brasil e do mundo, com certeza. De inicío pensei que seria pelo uso indiscriminado, então um médico amigo disse que seria por as pessoas desprezarem as cápsulas, compradas e depois preteridas, na privada. Sei lá, acho que é mesmo pelo uso descabido.

Mas juntando o assunto esgoto com ansiedade venho falar sobre o assunto que me perturbou nessa manhã. Numa casual leitura matinal, totalmente descompromissada, como você bem pode imaginar, descobri que entra em cartaz agora no dia 23 o filme "O Cheiro do Ralo", baseado no livro de Lourenço Mutarelli, de mesmo nome. Associe a um bom livro um roteiro de Marçal Aquino e atuação visceral (esse adjetivo os críticos gostam de usar!) do Selton Mello (mas também qual atuação dele não é visceral?). É uma gente de quem sou fã confessa há tempos. É uma gente muito boa, que tem o dom de tocar diretamente o botãozinho de prazer, cultural ou não, que tenho por dentro. Não tive oportunidade de assistir quando ele estava na mostra em São Paulo, e ganhou o prêmio de melhor filme. Agora guardo esse sentimento que PRECISO ver logo esse filme, uma questão de vida ou morte.
Ah, sim e a direção é de Heitor Dhalia, que não tenho muito a falar a não ser dados que li, se não me engano, na TPM (revista) de fevereiro. Garoto bonitinho, pernambucano. E talentoso pelo jeito.


É, doutor, um caso grave esse de ter ansiedade.


Um beijo,
TiTa
PS: Ainda hoje compro esse livro...já que não posso assitir ao filme NOW! (agora é a palavra do ansioso)
Ando pensando muito em palavras...

quarta-feira, outubro 25, 2006

Português, todos eles.



Estou lendo Inês Pedrosa, uma portuguesa dez anos mais velha que eu, em seu português de Portugal. Engraçado as peculiaridades que cada país tem na forma de usar sua língua e como é diferente do que temos aqui. Gosto desses que fazem literatura em português e não são traduzidos. Leio trechos em voz alta, com sotaque de português e quando vejo estou rindo sozinha. É tão engraçado, porque o texto por si só já tem a cadência do sotaque e nem preciso me esforçar para parecer estar ouvindo uma piada de português. E dou risada.
Querem tentar? Vamos lá, leiam com e sem sotaque:

"Telefonista de família é a definição profissional dos adolescentes. Começava-se a atender o telefone aos quatro ou cinco anos, num revolucionário ímpeto de afirmação, e acaba-se como secretário do sistema. Cada toque do telefone é pretexto para uma denúncia da escravatura materna e uma exibição da supremacia paterna. A mãe não pode atender, porque é a criada, o pai não deve atender, porque é o senhor"

Engraçado. Ou não?

Meu beijo, meu carinho

Tita

sábado, setembro 16, 2006

Prêmio Jabuti 2006


Aqui alguns sabem o quanto aprecio Literatura Infantil. Gosto esse que começou cedo, sendo coerente, na infância. Mas que foi deixado de lado, como se supõe para novamente ser fortemente avivado com a chegada dos rebentos troianos. Eles nos dão essa chave para o passado com um gosto totalmente diferente.
Já disse aqui que tem um menino dentro de mim que se expressa às vezes. E tem também um monstro, com nome e sobrenome. Tanta coisa...
Mas vim prá falar da minha felicidade quando soube que o vencedor da categoria de Literatura Infantil desse ano do Prêmio Jabuti foi Gabriel, o Pensador com o seu "Um garoto chamado Rorbeto". Confesso que sempre achei pretensioso um cara que se denomina pensador, como isso lhe fosse único, exclusivo. Pensador era ele, os outros fritam massa cinzenta...algo assim. O pensador contém um certo desdém...ou não?
Mas esse livro me arrebatou, minha gente! É genial, pelo amor que ele contém, pela paixão que senti no autor ao falar sobre sua obra em uma entrevista, pelo som que ele transmite quando lemos em voz alta para nossos filhos, pelo formato da apresentação dele que remete à literatura adulta...quem sabe já querendo deixar nos pequenos uma vontade de ter no futuro a vida cercada por companhias com esse exato formato. Enfim, tudo ali é especial. A editora cosac&naify também não dorme no ponto, tem um acabamento de obra de arte na maioria das vezes. O autor que é audacioso de ser o pensador, e de ser mais. Ser alguém que além de pensar, faz e é reconhecido. Parabéns pra você,
Gabriel .
Aqui coloco o texto que escrevi pra ele em seu site em novembro do ano passado quando li o livro pela primeira vez:

"7709
data: 2005-11-06 19:35:23Patrícia (
titaponte@gmail.com / sem homepage) escreveu: Não sou sua fã. Nunca fui sua fã embora admire sua criatividade e poder de comunicação. Escrevo-te esta nota, com a esperança de que seja lida, para falar que fui arrebatada pelo seu primeiro livro infantil. Vi sua entrevista na globo news e senti uma necessidade de vir até aqui te parabenizar pelo trabalho, que ficou genial. Senti sua paixão, sua curtição seu entusiasmo pelo momento do seu livro e desejo que este livro só te traga mais alegrias (prêmios que seriam muito adequados!) além de mais inspiração para novas histórias. Eu, sou Patrícia, médica e mãe de uma duplinha que adora historinhas, e também escrevo as minhas. Não era sua fã, agora sou. Espero novos livros, como uma criança espera por um show..."começa, começa, começa...!" Beijos Patrícia. "

Eu já torcia, e muito, por esse prêmio e já sentia o cheiro dele. Fico mais feliz por isso! Saber que apesar de parecer impossível ter literatura no Brasil, o que aparece de bom é reconhecido. Esse comentário ele gentilmente me respondeu por e mail, agradecendo pelo incentivo. Não é muito legal? Simples e legal.

Na categoria ficção quem ganhou o prêmio foi o escritor amazonense Milton Hatoum por "Cinzas do Norte", já veterano pois ele tem seus outros dois romances também premiados com o Jabuti. Eu li "Dois Irmãos", que ganhei de presente da Lu linda Longo e gostei bastante. Na categria não ficção ganhou o mineiro e exímio biógrafo Ruy Castro por "Carmem-Uma Biografia", onde conta a vida de Carmem Miranda.

Aí estão dicas, que, num fim de semana friozinho desses, podem ser bem-vindas. Ou não?
Beijo,
Tita

sexta-feira, setembro 08, 2006

Do que eu leio...


Na leitura um grande prazer. Desses que gosto de ficar espalhando aos sete ventos. Coloco aqui um trecho do Roland Barthes por Roland Barthes, que é descrito como uma autobiografia irônica, mas é mais do que uma autobiografia, e menos também. O poder do léxico.

" Mas eu nunca me pareci com isto!
- Como é que você sabe? Que este é 'você' com o qual você se pareceria ou não? Onde tomá-lo? Segundo que padrão morfológico ou expressivo? Onde está seu corpo de verdade? Você é o único que só pode se ver em imagem, você nunca vê seus olhos a não ser abobalhados pelo olhar que eles pousam sobre o espelho ou sobre a objetiva (interessar-me-ia somente ver meus olhos quando eles te olham): mesmo e sobretudo quanto a seu corpo, você está condenado ao imaginário"


Pobre de nós, é a pura verdade. Ontem uma pessoa me falou: Nossa como você se parece com X, você deve ouvir a todo momento que se parece com X! Pois é, apesar de ouvir a toda hora que me pareço com alguém, com X ainda não tinha ouvido. A mim, me resta imaginar, pois como constata friamente o autor estamos restritos aos olhos que nos vêem, e prisioneiros do nosso imaginário... Tanto melhor assim. Será?

Meu beijo e meu carinho!

Tita