sexta-feira, outubro 06, 2006

Não é fácil.

Todo começo é difícil, não se pode negar. Eu troco facilmente o brilho e a cor viva do que é novo por aquilo que, por já ter meu costume, meu jeito, me dá conforto, segurança e estabilidade. Pricipalmente quando penso em trabalhar por doze horas seguidas com pouca possibilidade de me sentar. Ando quilômetros, mesmo que em poucos metros quadrados.
Nessa quinta-feira vesti minhas botas de plantão (acabo de descobrir: até nome elas têm!). Um pé já carrega um leve rasgo, discreto é certo, na lateral. Os saltos, teimosos, parecem titubear nas passadas, escorregam para trás quando ando para frente. O couro gasto confere charme às pequenas. Tudo depende do ponto de vista. A parte da frente, nem quadrada nem redonda, não concorda nem discorda com nada mais grave. Sabe sobre o crucial papel secundário dos calçados.
Na quinta de manhã, após calçar as surradas botas, pensei: Hoje é o último dia delas. Corajosa, trabalhei. Corajosas, trabalharam. Trabalho duro, pesado. No entanto, o atestado de óbito delas ainda não tive coragem de assinar. Mas já sei. Não estarão no próximo plantão.


Beijo
Tita

Vou te contar...

O ábum de fotos do Rio está quase pronto!
Tem uma vantagem demorar a fazer: agora, pouco mais de um mês depois, parece que viajo de novo...
Eu e Lulu por Jupiss, no Conversa Fiada

quarta-feira, outubro 04, 2006

Atrasadinha

Muito obrigada!

Fico sem escrever por alguns motivos. O principal deles é porque não devo mesmo ter nada para dizer. Você pega, torce daqui, espreme de lá e nada. Nem uma sílaba sai para fazer história.

Há um tempo estou lendo "Grande Sertão: Veredas" de Guimarães Rosa. Leitura essa que faço, propositalmente, em doses homeopáticas. Não se lê esse livro em qualquer lugar. Não dá para ser a mesma pessoa depois que se lê Guimarães Rosa. Talvez eu tenha lido Sagarana para o vestibular. E desse Grande Sertão eu sabia mais técnicas do que de fato conteúdo e forma (quero dizer eu sabia responder questões de vestibular mas não sabia ao certo o que era o livro). Reconheço nele a genialidade humana e me curvo, na minha normalidade, diante desse escritor. Colocarei alguns assuntos que rondaram minha última semana, abrindo com frases que extraí do livro . Sim, eu transcrevo num caderninho as passagens que mais me agradam - e são tantas elas!

MINHA VIZINHA

"E, digo ao senhor, aquilo mesmo que a gente receia fazer quando Deus manda, depois quando o diabo pede se perfaz."

Eu não queria o mal dela. Eu nunca quis o mal dela e ela nem sabe o mal que faz a mim e a minha família. Descobri que todo mundo tem uma história para contar sobre vizinho. Algumas são boas. Eu ainda não quero o mal dela.

Os incomodados que se mudem, diz o ditado, e é o que vou rapidamente fazer. Cansei de ser incomodada. Vou embora para Passárgada. De lá não terei notícias sobre as vozes que ela escuta e que a atormentam.

O ACIDENTE AÉREO

"Sabe o senhor: Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso..."

Até agora não pude entender o que aconteceu (e poucos entenderam, se é que alguém entendeu...) e isso que me deixa mais perplexa. Como duas aeronaves se encontram na vastidão do céu brasileiro sem ao menos ter sido marcado um encontro? Como a menor sai quase ilesa e a maior se acaba no chão? Devo acreditar que o ocorrido aconteceu porque era o céu da Amazônia? Será que o homem duvidou e fez 154 pagarem juntos prá ver? Quem quiser e souber pode me responder...!

A ELEIÇÃO

"Mas a água só é limpa é nas cabeceiras. O mal ou o bem, estão é em quem faz, não é no efeito que dão."

Domingo eu, e mais uma galera de brasileiros, votamos. Estava incomodada em ter de votar dessa vez. Escolhi meus candidatos de última hora. A democracia, a glasnost brasileira, essa transparência obscena que o cenário nacional assumiu nesse último governo me assustou, me anestesiou (fiquei sem ação), me acuou. Invento que a falta de propaganda de boca-de-urna (que já nem é tão recente) tirou a graça da eleição. Aquela farra toda de santinhos espalhando-se que parecia de certa forma também ser um maneira de propagar a esperança de mudança. Mas será que já houve graça? Só sei que ao final, digitando os números escolhidos de sopetão, me embuí de um espírito que posso chamar de otimista. Cada foto que aparecia na telinha eu olhava bem dentro do olho do...(que vontade de escrever uma palavra de baixo calão)candidato, da criatura da foto e suplicava para que fizesse algo pelo Brasil. Faz alguma coisa aí fulano! E eu pensei bem forte. Dando risada dessa minha atitude, saí da escola com o documento na mão. Esse sopro de otimismo que me leva. Fazer o quê? Sou assim. Eu nem precisava de nariz de palhaço para ter certeza que tem um enorme dentro de mim.

Um adendo: Na década de 40, meu pai infante pergunta a sua avó Paschoalina o que é um deputado. Ela sabendo muito bem o que é responde: "É um puto que anda pelas ruas!". Sucinto e verdadeiro.

O CINEMA DE DOMINGO

"E a gente, isso eu sei, às vezes é só feito menino."

Assistimos "Cinema, Aspirinas e Urubus" , primeiro e premiado filme do cineasta pernambucano Marcelo Gomes, que tem um tom auto-biográfico, pois conta uma história vivida por um tio seu. Os atores principais, totalmente por mim desconhecidos, estão muito bem. Amei a cena em que eles dão carona para uma moça da roça(aí eu descobri quem eram os urubus do título...rsrs). Foi charme para todo lado. É um road movie brasileiro, com suas peculiaridades. Sofrido na alegria, sofrido na calma de quem tem todo tempo do mundo para passar fome. De todos tipos de fome eu falo. E não há neles a sensação de sofrimento que eles passam. Entendem?

Não é imperdível, mas com certeza um filme muito melhor que outros que estão em cartaz.

O DIA ESPECIAL

" Eu vinha pensando, feito toda alegria em brados pede: pensando por prolongar. Como toda alegria, no mesmo momento, abre saudade" (não me contenho, não é lindo?)

Dia 2 fiz sete anos de casada. Abri a porta para ele a noite e o vi carregado de minhas flores favoritas, as mesmas do bouquet daquele dia sete anos atrás. Todo dia, depois daquele dia, é especial.

Para vocês, meu beijo e meu carinho.

Tita


quarta-feira, setembro 27, 2006

AMIGA, AMIGA

Pode ser porque eu sou de gêmeos e ela de balança.
Pode ser porque os pais dela resolveram mudar de São Paulo para Santos em 1981. Pode ser porque meu cabelo liso gostava do dela encaracolado.
Pode ser porque ela sempre esteve ao meu lado.
Pode ser porque temos duas irmãs cada.
Pode ser porque eu sou a mais velha e ela a mais nova, mesmo ela sendo mais velha. Pode ser porque ela me acompanhou no camarim do Engenheiros do Hawaii na década de 80.
Pode ser porque ela tinha medo de cachorro, e eu de homem.
Pode ser porque gostávamos muito de Legião. Pode ser porque da varanda dela, no quinto andar, via-se a piscina.
Pode ser porque nadamos em clubes diferentes, mas nadamos.
Pode ser porque ela é certa e organizada e eu quase desorientada.
Pode ser porque a boca dela é pequenininha e delicada e a minha um arregaço.
Pode ser porque ela sempre me falou tudo.
Pode ser porque eu sempre ouvi tudo, ou quase tudo.
Pode ser porque eu soube esperar quando era para esperar.
Pode ser porque amizade como essa a gente não desiste mesmo.
Pode ser porque não havia como ser diferente, só haveria de ser assim.
Na ocorrência de tantos bons motivos não há razão para especular a verdade.
A verdade é que ela é minha amiga desde que eu me conheço precisando de uma amiga. E hoje sendo o dia da Vic, é o meu dia também. Meu dia de comemorar, comer sanduíche de metro e bolo recheado com crianças barulhentas correndo ao redor. Não há o que duvidar.
Só há que se compreender o que é a felicidade.

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E como se não bastasse a amiga desse dia, ganhei mais uma. Até engraçado, pois dia 12 de setembro é outro dia que tenho duas grandes amigas aniversariando no mesmo dia. Mas com essa de hoje tive uma peculiar aproximação. O melhor amigo de meu filho desde o berçário tem uma mãe. E da amizade selada a baba, mordidas, e agora super-heróis, surgiu a nossa. Inevitável e pra lá de agradável. Somos tão diferentes e tão iguais nas nossa diferenças. Com tanto em comum. Quem quer entender? Com ela, ontem de noite, brindei a chegada de uma idade para ela, que desejo que seja especial. Como você é especial, Lu!

Para as aniversariantes queridas e para todos, meu beijo e meu carinho,
Tita

sábado, setembro 23, 2006

Dentro do mesmo time



É só você chegar, que me sinto feliz. Me sinto inteira e forte. Pronta pra sentir outra saudade.

(fotógrafa: Jupiss)

Para quem também gosta, para quem não conhece, para quem ama, para quem sabe ser feliz e triste (tudo ao mesmo tempo),ou para quem só quer ler a música do dia. Desse músico que tem música para qualquer tipo de situação, como diz o PP, amigão.

Dentro do mesmo time(Nando Reis)

Entra pela porta da frente

Mas pula para o banco de trás

Abre a janela contente

Pra ver o sol fervendo no ar

E depois que o olhou

Fica sem falar

Escolhe o esmalte meticulosamente

Por ver razões na cor, que irão se explicar

Pra tudo funcionar simplesmente

Como gesto espontâneo, invulgar

E depois da cor

O que virá?

Se o mundo combinar felicidade e tristeza

Dentro do mesmo time

Lugar que não se vá

É o que há pra duvidar

Se é só isso que existe

Vai confirmar o olho que olhou

Ou esperar o sonho

Que ninguém sonhou

Onde você que chegar

Espalha graça ao pleno presente

E mesmo ausente é doce sua falta

Espelho é o mar, o lago, meus dentes

Com um beijo posso ver sua alma

E depois que eu vou

Não vou voltar.

Enorme o seu lugar, quase o vento

Mas é dentro de mim mesmo que cabe

Não há vogais a mais no silêncio

Que morre se faltar a palavra

E depois falou:- preciso mais!

:) ;) :) ;) :) ;)

Para todos um ótimo final de semana!

Tita

quarta-feira, setembro 20, 2006

Vem cá, eu te conheço? (pessoas revisitadas)

Pinacoteca de São Paulo, um esconde-esconde de Rodin
Penso que cheguei a meia idade, seja lá que idade essa for...Se tenho trinta e tralálá, matematicamente posso calcular a meia idade, tal que X é a idade que atingirei. Como X é uma incógnita e assim continuará não sei o resultado da equação. Mas também não importa, se faz tarde e já vejo certo prazer em tomar sopa de noite.
Há um tempo estava numa livraria dessas multi-mídia, que tem de tudo e que posso acertadamente concluir que é um de meus programas favoritos visitá-las. Depois de ler sobre receitas rápidas e fáceis, ver preço de máquina fotográfica digital, ver uns livrinhos infantis e se encantar com o grau de beleza que eles têm, finalmente fui me divertir na seção de CDs. Por lá uma pessoa me notou, e na seqüência eu o notei. Como já disse estou na meia idade, mas com corpinho da pós idade. Assim, de longe passa paquera na minha cabeça. Não dá, não estou para isso também. Será possível que é pra mim que ele tanto olha? De rabo de olho concluo que é pra mim, afinal havia vazio ao meu redor. Era comigo e resolvi que se ele me olhava eu podia dar umas encaradas. Foi quando me veio a luz, sinapses foram rapidamente estabelecidas: A-há! Eu conheço esse cara! Gostaria de poder apresentá-lo agora para você, leitor, mas o que ocorre é que não faço a mais vaga idéia de quem ele seja. É um daqueles conhecidos-desconhecidos que me atormentam. Por que será que eu fui abençoada com esta capacidade incrível de guardar bem fisionomias? Guardo a fisionomia como poucos, mas o resto vai para o espaço. Conjugo a famosa dificuldade de correlacionar nome, lugar e pessoa. Departamentos do meu cérebro que não se conectam, deixam-me sozinha com um rosto familiar. Poderia ter ido até ele dando um simples oi e começando qualquer conversa sem noção chegaria a alguma conclusão sobre o paradeiro de meu conhecimento. E como sofro de pouca timidez lá pela metade do papo, soltaria o cruel “de onde mesmo que eu te conheço?” e minha agonia findaria. Na meia idade podemos conhecer a pessoa da escola, do colegial (que agora chamam de ensino médio), do cursinho em Santos, do cursinho em São Paulo, da faculdade, da universidade, de algum hospital que freqüentei, aulas extras...São muitos os lugares, e aqui há uma explicação, embora não seja uma justificativa, para esse meu problema.
No entanto pensei melhor. O cara não era tão comum. Baixo, de olhos claros, careca raspada, cavanhaque sem bigode, longo. Some a isso brincos , anéis e tatoos em profusão. Me ocorreu um medo de chegar lá e ele dizer: Sim nos conhecemos da televisão, de você me ver na televisão, sou baterista do ultraje ou do natiruts ou qualquer coisa descabida. Ou ainda eu sou VJ da Mtv...Sei lá, o mico seria muito grande e mesmo eu na mais descabida cara de pau não suportaria ouvir essa resposta!
Acabou que não o abordei. Saímos da livraria quase juntos, como um carma, um encosto atormentando minha mente. Então, ele saí na frente e posso ver a placa de seu carro. Pista que me levou a solução do mistério. É da cidade que trabalho, perto de SP. Conexões no andar de cima me dizem que ele, enfim, é um dentista de lá, encontro-o raramente em reuniões. Aliviada, vou para casa e posso dormir em paz.

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Nesse último final de semana de festas ocorreu algo bem parecido. A dona da festa conversava com um homem que era muito familiar. Dessa vez achei que o conhecia do hospital, do HC. Estava quente em minha pista. Cumprimentei-o com um sorriso e curti a festa. Minha amiga estava num papo muito bom com ele e assim demorava pra eu poder ir lá fazer a cruel pergunta :"de onde te conheço?"... Perigosa, eu? Só um pouco, doidinha pra dar um fora. Pensei melhor e sendo a moça muito próxima minha achei adequado perguntar a ela quem era o homem. Ainda bem que não fui falar com ele... É o doutor da alegria, Tita! Ao menos eu o conhecia do hospital mesmo, e claro da televisão também.

Me beijo e meu carinho!
Tita

sábado, setembro 16, 2006

Prêmio Jabuti 2006


Aqui alguns sabem o quanto aprecio Literatura Infantil. Gosto esse que começou cedo, sendo coerente, na infância. Mas que foi deixado de lado, como se supõe para novamente ser fortemente avivado com a chegada dos rebentos troianos. Eles nos dão essa chave para o passado com um gosto totalmente diferente.
Já disse aqui que tem um menino dentro de mim que se expressa às vezes. E tem também um monstro, com nome e sobrenome. Tanta coisa...
Mas vim prá falar da minha felicidade quando soube que o vencedor da categoria de Literatura Infantil desse ano do Prêmio Jabuti foi Gabriel, o Pensador com o seu "Um garoto chamado Rorbeto". Confesso que sempre achei pretensioso um cara que se denomina pensador, como isso lhe fosse único, exclusivo. Pensador era ele, os outros fritam massa cinzenta...algo assim. O pensador contém um certo desdém...ou não?
Mas esse livro me arrebatou, minha gente! É genial, pelo amor que ele contém, pela paixão que senti no autor ao falar sobre sua obra em uma entrevista, pelo som que ele transmite quando lemos em voz alta para nossos filhos, pelo formato da apresentação dele que remete à literatura adulta...quem sabe já querendo deixar nos pequenos uma vontade de ter no futuro a vida cercada por companhias com esse exato formato. Enfim, tudo ali é especial. A editora cosac&naify também não dorme no ponto, tem um acabamento de obra de arte na maioria das vezes. O autor que é audacioso de ser o pensador, e de ser mais. Ser alguém que além de pensar, faz e é reconhecido. Parabéns pra você,
Gabriel .
Aqui coloco o texto que escrevi pra ele em seu site em novembro do ano passado quando li o livro pela primeira vez:

"7709
data: 2005-11-06 19:35:23Patrícia (
titaponte@gmail.com / sem homepage) escreveu: Não sou sua fã. Nunca fui sua fã embora admire sua criatividade e poder de comunicação. Escrevo-te esta nota, com a esperança de que seja lida, para falar que fui arrebatada pelo seu primeiro livro infantil. Vi sua entrevista na globo news e senti uma necessidade de vir até aqui te parabenizar pelo trabalho, que ficou genial. Senti sua paixão, sua curtição seu entusiasmo pelo momento do seu livro e desejo que este livro só te traga mais alegrias (prêmios que seriam muito adequados!) além de mais inspiração para novas histórias. Eu, sou Patrícia, médica e mãe de uma duplinha que adora historinhas, e também escrevo as minhas. Não era sua fã, agora sou. Espero novos livros, como uma criança espera por um show..."começa, começa, começa...!" Beijos Patrícia. "

Eu já torcia, e muito, por esse prêmio e já sentia o cheiro dele. Fico mais feliz por isso! Saber que apesar de parecer impossível ter literatura no Brasil, o que aparece de bom é reconhecido. Esse comentário ele gentilmente me respondeu por e mail, agradecendo pelo incentivo. Não é muito legal? Simples e legal.

Na categoria ficção quem ganhou o prêmio foi o escritor amazonense Milton Hatoum por "Cinzas do Norte", já veterano pois ele tem seus outros dois romances também premiados com o Jabuti. Eu li "Dois Irmãos", que ganhei de presente da Lu linda Longo e gostei bastante. Na categria não ficção ganhou o mineiro e exímio biógrafo Ruy Castro por "Carmem-Uma Biografia", onde conta a vida de Carmem Miranda.

Aí estão dicas, que, num fim de semana friozinho desses, podem ser bem-vindas. Ou não?
Beijo,
Tita