
Ou: Uma declaração de amor!
Aproveito que vocês estão de férias na casa dos avós para dizer que sinto saudades. Como sinto saudades quando deixo vocês na porta da escola e sigo meu dia, para trabalhar. Uma ausência gostosa de quem tem a quem amar. De quem sabe que passam bem sem mim. Os versos de Nando Reis parecem explicar isso: “Espalha graça ao pleno presente e mesmo ausente é doce sua falta”. Isso: é doce a falta que sinto.
Venho para responder uma pergunta que ainda não ouvi de vocês, mas sei que não tardará em chegar o momento em que desejarão saber afinal de onde vieram. Então vou ao começo, e lembro como se fosse hoje o dia em que vi o Carlão pela primeira vez na minha vida. Sustentava ele um sorriso capenga em meio a olheiras do seu olhar bonachão de uma noite de plantão sem um minuto de sono. A saber, seu primeiro plantão como residente do segundo ano, e eu residente do primeiro ano em meu primeiro dia de curso, chegando às sete da manhã para render a turma já arreada pela batalha que havia sido aquela noite. Marquei o sorriso capenga: gostei!
Da primeira visão ao nosso primeiro dia de namoro passou algo como um ano. Nesse tempo descobri que ele era um bom partido e queria de alguma forma arranjá-lo com minha irmã, uma moça igualmente bom partido. Descobri, também, que não poderia cumprimentá-lo diariamente com um beijo e um abraço apertado como ele costumava fazer. Não me fazia bem ficar só com o beijo e o abraço apertado, então melhor era usar o bom dia casual. E nesse cumprimento efusivo que ousei certa vez, um parafuso por dentro me contou o improvável: um dia eu casaria com aquele homem. Guardei segredo. Descobri uma afeição inconsciente por ele no dia em que ao nos encontrarmos e surgiu o beijo na bochecha ou no ar, como usual, aproveitei para dar uma inspirada profunda ao pé do ouvido. Tão espontânea quanto descabida...Onde eu estava com a cabeça pra fazer aquilo? Ora estava com a cabeça e a ponta do nariz muito próxima de uma orelha que mesmo sem eu saber já era muito querida.
E foi assim que um dia ele me convidou para jantar. A conversa foi envolvente e sincera. Carinhosa, até. A noite seguia e eu vendo que talvez ainda não tivesse deixado claro. Resolvi dizer: pode me beijar! Então tudo começou, ou continuou. Uma paixão maior do que a maior montanha que já viram, uma amor que não fica contando perdas e ganhos. Como diziam que deveriam ser os amantes. Desde o início fiquei intrigada em como um sentimento daquele volume poderia ser acrescido de mais tamanho com a presença de filhos, se avolumar. Casamos e ficamos um ano sem crianças então foi que vocês vieram. Primeiro o Troiano e depois a Troiana...tudo por causa de um grande amor. Assim foram imaginados, feitos e esperados. Tenho a resposta na ponta da língua para quando me perguntarem. Hoje vivem para nos ensinar muito mais sobre amor e felicidade. E paciência também...Ainda hoje sinto-me apaixonada pelo pai de vocês, e cada vez que o vejo de longe tenho um orgulho incontido em saber que é o meu marido. E tenho também aquele friozinho na barriga, que os apaixonados costumam ter, e um dia saberão como é.
Quero que brinquem bastante aí em Santos, ou em casa, ou na escola. Desejo realmente que aprendam a brincar, e que esse aprendizado fundamental da brincadeira, que não vem como disciplina da escola, não seja esquecido na vida adulta. Se eu posso sonhar algo para o futuro de vocês é isso: Vivam sempre, em qualquer tempo, como quem tem na mão a felicidade e a leveza de saber que a vida é uma brincadeira.
Beijos, estou chegando, Mamãe tita!.
São Paulo, julho de 2006.