segunda-feira, março 19, 2007

Carta Aberta aos Meus Filhos




Ou: Uma declaração de amor!


Aproveito que vocês estão de férias na casa dos avós para dizer que sinto saudades. Como sinto saudades quando deixo vocês na porta da escola e sigo meu dia, para trabalhar. Uma ausência gostosa de quem tem a quem amar. De quem sabe que passam bem sem mim. Os versos de Nando Reis parecem explicar isso: “Espalha graça ao pleno presente e mesmo ausente é doce sua falta”. Isso: é doce a falta que sinto.

Venho para responder uma pergunta que ainda não ouvi de vocês, mas sei que não tardará em chegar o momento em que desejarão saber afinal de onde vieram. Então vou ao começo, e lembro como se fosse hoje o dia em que vi o Carlão pela primeira vez na minha vida. Sustentava ele um sorriso capenga em meio a olheiras do seu olhar bonachão de uma noite de plantão sem um minuto de sono. A saber, seu primeiro plantão como residente do segundo ano, e eu residente do primeiro ano em meu primeiro dia de curso, chegando às sete da manhã para render a turma já arreada pela batalha que havia sido aquela noite. Marquei o sorriso capenga: gostei!

Da primeira visão ao nosso primeiro dia de namoro passou algo como um ano. Nesse tempo descobri que ele era um bom partido e queria de alguma forma arranjá-lo com minha irmã, uma moça igualmente bom partido. Descobri, também, que não poderia cumprimentá-lo diariamente com um beijo e um abraço apertado como ele costumava fazer. Não me fazia bem ficar só com o beijo e o abraço apertado, então melhor era usar o bom dia casual. E nesse cumprimento efusivo que ousei certa vez, um parafuso por dentro me contou o improvável: um dia eu casaria com aquele homem. Guardei segredo. Descobri uma afeição inconsciente por ele no dia em que ao nos encontrarmos e surgiu o beijo na bochecha ou no ar, como usual, aproveitei para dar uma inspirada profunda ao pé do ouvido. Tão espontânea quanto descabida...Onde eu estava com a cabeça pra fazer aquilo? Ora estava com a cabeça e a ponta do nariz muito próxima de uma orelha que mesmo sem eu saber já era muito querida.

E foi assim que um dia ele me convidou para jantar. A conversa foi envolvente e sincera. Carinhosa, até. A noite seguia e eu vendo que talvez ainda não tivesse deixado claro. Resolvi dizer: pode me beijar! Então tudo começou, ou continuou. Uma paixão maior do que a maior montanha que já viram, uma amor que não fica contando perdas e ganhos. Como diziam que deveriam ser os amantes. Desde o início fiquei intrigada em como um sentimento daquele volume poderia ser acrescido de mais tamanho com a presença de filhos, se avolumar. Casamos e ficamos um ano sem crianças então foi que vocês vieram. Primeiro o Troiano e depois a Troiana...tudo por causa de um grande amor. Assim foram imaginados, feitos e esperados. Tenho a resposta na ponta da língua para quando me perguntarem. Hoje vivem para nos ensinar muito mais sobre amor e felicidade. E paciência também...Ainda hoje sinto-me apaixonada pelo pai de vocês, e cada vez que o vejo de longe tenho um orgulho incontido em saber que é o meu marido. E tenho também aquele friozinho na barriga, que os apaixonados costumam ter, e um dia saberão como é.

Quero que brinquem bastante aí em Santos, ou em casa, ou na escola. Desejo realmente que aprendam a brincar, e que esse aprendizado fundamental da brincadeira, que não vem como disciplina da escola, não seja esquecido na vida adulta. Se eu posso sonhar algo para o futuro de vocês é isso: Vivam sempre, em qualquer tempo, como quem tem na mão a felicidade e a leveza de saber que a vida é uma brincadeira.

Beijos, estou chegando, Mamãe tita!.
São Paulo, julho de 2006.

8 comentários:

FELICIDADEetrist... disse...

Ai, meu Deus.... Que coisa mais linda é essa, minha querida Ti???? Ai, meu deus...
Não tenho nada pra falar... Só pra suspirar...
E pra
lembrar
que
eu te amo
e
amo essa linda família que só vc poderia construir...
Parabéns!
Sorte minha por tê-los na minha vida.
Lu

Anônimo disse...

Ah, se eu pudesse trocar de mãe!!!!

;)

V&D disse...

menina! Que coisa boa de ler, de arrepiar.

Beijos!

Anônimo disse...

Muito legal sua atitude, Tita, e também muito prática! Hoje, na borda dos 38, imagino, fantasio e me frustro por não poder perguntar tantas coisas ao meu pai que perdi aos 13, ou até à minha mãe que se foi aos meus 26, mas que antes penou por dois anos vítima de um AVC bilateral. Tantas perguntas que ficaram sem resposta. Tantas perguntas que chegaram tão tarde. Mas ainda restaram algumas cartas e contos de minha mãe que eu tinha por maravilhosa, mas que hoje sei, era muito mais!

Beijo, outra mãe mais que maravilhosa,

Labelle® Paz disse...

Nossa, Tróia...

Eu só estou conseguindo ler seus textos hoje e quando acabei esse, me vi emocionada.
Que história linda !!!!!!! Cada vez mais admiro vc e a sua família.

Te adoro, amiga!
Beijocas em todos!

Anônimo disse...

tróia, que lindo!!!

me emocionei com isso!!

adoro histórias de amor, mas histórias que continuam e que as pessoas demonstram o tamanho do amor que sentem uma pela outra!

os troianos são anjos que vieram complementar o amor que vc sente pelo carlão!!!



beijocas da


vanvan

Unknown disse...

Linda, Linda, Linda!!!!! Só posso dizer que tanto o Carlão quanto as crianças tem muita sorte em ter você!
Na verdade, penso que as almas se atraem por semelhança, você atraiu para você este amor e estes filhos tão lindos sendo a pessoa querida que é. Família é sim uma coisa sublime não é?
beijos querida!!!!
Sua amiga cor de rosa

Anônimo disse...

Aqui em Minas se ouve muito um ditado:" O diabo sabe pra quem aparece!!!" E eu na minha versão eternamente otimista digo que a felicidade também sabe!!! Esse sorriso largo, lindo e sincero não soa a quem vê(mesmo que só por fotografias)como uma obrigação, seu sorriso mostra uma alma feliz,com todos os motivos que você conta em sua carta.
Como mãe, esposa e amiga tenho que confessar que fiquei emocionada...
beijo da fã de BH!!!!